Aron Schmitz era um escritor italiano relegado ao opróbrio do anonimato até publicar, sob o pseudônimo de Ítalo Svevo, A Consciência de Zeno, história na qual as memórias do protagonista – que abordam do vício pela nicotina ao amor reprimido pela cunhada – são perscrutadas postumamente por seu analista.
Paulo Francis, diferentemente de Zeno, não relegou seus pensamentos aos olhos cansados de um psicólogo. Porém, assim como Zeno, encontrava no papel a válvula de escape para as suas reflexões, indagações e confissões.
A história é conhecida: jornalista, colunista e crítico em geral, Francis é considerado por muitos como um dos maiores intelectuais do século passado. Apesar de ter escrito três livros de ficção, duas memórias e seis coletâneas – todos um fracasso de crítica, à exceção de O Afeto que se Encerra, que a despeito da narrativa confusa e das citações aleatórias e pernósticas, adquire certa relevância por seu caráter revelador da formação psicológica do autor -; Francis será mais lembrado por sua conduta polêmica, agressiva e mordaz.
Tais características são muito bem exploradas em Waal – O Dicionário da Corte de Paulo Francis, antologia de epígrafes publicadas pelo autor nos Jornais Folha de S. Paulo e O Estado de S. Paulo, onde o mesmo trabalhou a partir de 1977.
Organizada pelo jornalista Daniel Piza, o livro é esquematizado de forma semelhante ao recém lançado Dicionário Lula , ou seja, traz em ordem alfabética as opiniões e análises de Francis sobre os mais variados temas e assuntos, do aborto à melodia de Wagner, compositor teutônico de quem Francis tanto se orgulha em citar. A seguir, algumas das frases antológicas (e polêmicas) da obra:
- Sou assim. Apátrida, Apatriótico. No país em que vivo me adapto. Considero o nacionalismo, em última análise, uma das principais causas de nossas desgraças. Se somos nacionalistas, temos de fazer o mal ao próximo, em defesa do que julgamos nosso. (FSP, 22/12/79)
- Jorge Luis Borges é um imitador muito do mixuruca de Kafka. (FSP, 18/8/84)
- A descoberta do clarinete por Mozart foi uma contribuição cultural maior do que a que a África toda nos deu. (FSP, 24/5/90)
- Mulheres também têm participação mínima na história. Não quero dizer que não tenha havido grandes mulheres, de Cleópatra a Greta Garbo. Mas sua participação é mínima pelo simples motivo de que a história da humanidade até a segunda metade do século é, como notou Winston Churchill, a guerra. (FSP, 26/4/90)
- Qualquer pessoa inteligente é contraditória, só gente burra que não se toca disso.
- A televisão é a força mais subversiva da nossa sociedade, ainda que inconscientemente. Como há uma enorme propaganda da que somos todos iguais, a realidade provoca ressentimento crescente nos que não têm o que querem. (FSP, 18/1/90)
- A melhor propaganda anticomunista é deixar os comunistas falarem. (FSP, 6/7/79)
- Cuba é um deserto intelectual. Ninguém pode sair. Nada se pode discutir. (FSP, 6/4/89)
Francis teve um infância conturbada, o que explica muito de seu caráter. Sofreu um trauma aos 14 anos, quando a prematura morte da mãe por septicemia e eclâmpsia o fez mergulhar em um profundo isolamento emocional (a relação com o pai nunca fora estável), do qual ele libertar-se-ia somente aos 27 anos. O desastre de seu irmão, morto em um acidente aéreo, contribuiu para que o abismo afetivo aumentasse.
Restou-lhe o isolamento junto aos livros, os quais ele devorava com a voracidade típica de quem procura respostas metódicas para problemas subjetivos. Mudou-se para os EUA em 1971, já com 41 anos, para fugir dos constantes vetos da censura; casou-se quatro anos mais tarde, quando foi chamado para trabalhar na Folha de S.Paulo, e, em 1977, passou a publicar a sua coluna Diário da Corte.
Cosmopolita, Francis dizia que Nova York era a cidade ideal para se viver. Sobre os EUA, afirmava com lucidez que a maior parte dos detratores pouco conhecia deveras o território americano. Residia em um confortável duplex na metrópole, a poucas quadras do estúdio da Rede Globo, onde passou a trabalhar a partir do inicio ds anos 80.
Convertido ao neoliberalismo, mantinha no escritório de seu apartamento uma foto de Trotski pendurada na parede, que representava o último resquício de sua juventude esquerdista. Nem por isso Francis resignava-se ao erro: sua conduta indefectível fazia-a o atribuir aos inteligentes o dom da contradição.
Foi aí que Francis se perdeu. Ao elevar a altivez a níveis maiores que a própria sapiência, ele despertou a crítica de muitos intelectuais, que o consideravam desprovido do conhecimento que ele se esforçava em demonstrar, e perdia-se em asserções nitidamente opinativas e desprovidas de critérios jornalísticos laboriosamente estudados. Dessa forma, defendia-se com opiniões pessoais que apresentava como truísmos iniludíveis e freqüentemente apelava a extremismos – a saída mais fácil à ausência de argumentos – em seus textos.
Além disso, Francis orgulhava-se de seu estilo contestador e ácido. Comprava brigas (muitas vezes desnecessárias) cujo sentido parecia limitar-se a polêmica por si só. Assim, já foi chamado de “Bicha amarga” por Caetano Veloso e agredido por Paulo Autran e Adolfo Celi , após insinuar que a atriz Tônia Carrero alçara a sua carreira por meio do sexo. Perdeu amizades e credibilidade. Arrependeu-se do episódio posteriormente.
Vítima de um ataque cardíaco, Francis morreu há doze anos, em Nova York, onde morava desde o início dos anos 70. Seu legado no jornalismo nacional é inegável, e de sua fonte bebem até hoje nomes como Arnaldo Jabour, Diogo Mainard e João Pereira Coutinho. O paradoxo de Francis situa-se na sagacidade e lucidez de seus pensamentos conspurcados por preconceitos e agressividade gratuita. Aversão ou admiração, é impossível passar indiferente a Francis.


Ótimo texto, gostei muito.